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Serra da Cantareira: aquela que São Paulo não vê

VEJA O VÍDEO AQUI.

“Quem casa, quer casa.” Estávamos, o marido e eu, à procura de um imóvel para morar. Selecionamos bairros pelos quais simpatizávamos mais próximos ao comércio, com facilidade de transporte público e, acima de tudo, que evitasse grande deslocamento ao trabalho – este é um sonho para quem vive em uma cidade com 11 milhões de habitantes como São Paulo. Depois de literalmente rodarmos a cidade, optamos pela Zona Oeste.

Apesar de toda essa preocupação em facilitar o cotidiano, após fechado o apê, o que me fez apaixonar por ele foi a vista: “Dá para ver a Serra da Cantareira”! Eu não acreditava que essas montanhas destacadas apenas em mapas geográficos do colégio – ou de aviação – pudessem estar tão pertinho de mim. Ironicamente, quem me apresentou para valer a “Serra” foi o meu marido enquanto namorávamos – e nem imaginávamos que iríamos nos casar e, muito menos, morarmos em frente a ela. Ele me mostrou que há um parque visitável incrível chamado (adivinhe): Parque Estadual da Cantareira. Do alto da sua Pedra Grande, dá para ver São Paulo quase inteira. Uma floresta de concreto.

Todo dia, assim que acordo e quando chego em casa, a primeira coisa que faço é abrir as cortinas da minha casa para o mundo. Respiro fundo com a Serra no horizonte. Se está sol e tempo limpo, dá para observar cada frondosa árvore. Nos dias nublados, parece que a Serra é feita de algodão pintado com diferentes tons de verdes e até azulados. Percebi que pode chover na Zona Norte, enquanto na Zona Sul o céu está limpo, porque as nuvens se acumulam sobre o acidente geográfico. E que chuva boa. Ela ajuda a abastecer a Cantareira, que justamente recebeu esse nome em alusão aos cântaros levados com água do local pelos tropeiros em viagem lá pelo século XVI.

Ignorada pela floresta de concreto, a Serra da Cantareira continua até hoje fornecendo água aos sedentos pelo “desenvolvimento”. Abro a torneira e sei que esse líquido cristalino é um presente da serra que abraça a cidade. Daquela que está atrás de mim enquanto lavo a louça, zelando por nossa saúde. O vídeo é minha homenagem a uma protagonista da nossa vida, mas invisível aos olhos dos habitantes da Região Metropolitana que só vivem no futuro. Sem a Serra da Cantareira, haveria amanhã?

Decreto Ecológico

O texto a seguir foi escrito pelo meu querido amigo Nelson Valente (@Escritor4). Nelson é professor univesitário, jornalista e escritor e, além disso, um partícipe de grande e importante parte da história recente do Brasil. Com o título acima, ele publicou, em outubro de 2010, no Jornal O REBATE, uma verdadeira aula de legislação ambiental comparada, que vale o resgate, para que não se perca nas brumas da poluição… Ei-lo:

Em 1961, o Presidente da República tinha uma certa competência legislativa exercida através de Decretos, graças à Constituição de 1946. Saulo Ramos incentivou muito Jânio a usar de tal competência, inclusive cometendo algumas inconstitucionalidades, até hoje não contestadas. Não era difícil provocar o entusiasmo de Jânio que, excessivamente inteligente, captava rapidamente idéias novas, sobretudo se fosse de interesse público. Assim, Jânio e Saulo, numa conversa a sós, sem palpiteiros, discutiram longamente um decreto em defesa da ecologia e do meio ambiente, assunto desconhecido e misterioso, inclusive no exterior. Os dois, porém e atrevidamente, soltaram a imaginação e o pensamento criativo, concluindo que era preciso regulamentar a defesa do meio ambiente. – Redija hoje, que eu assino amanhã! Hoje, sem falta, mas inclua tudo o que discutimos – Mas hoje é sábado e amanhã é domingo. É preciso colher a assinatura do Ministro da Agricultura para referendar o decreto. E talvez de outros Ministros. – Não interessa. Quero o decreto amanhã. Talvez seja o domingo o dia em que os brasileiros menos estragam a natureza. Um bom dia para assiná-lo. Claro que somente recebeu a minuta na segunda-feira e ele próprio, com estremo entusiasmo, redigiu muitos dispositivos. Editou-se o Decreto n° 50.877, em 29 de julho de 1961, um dos primeiros atos normativos, em favor do meio ambiente, editados no mundo! Para se ter a idéia do pioneirismo, a lei de proteção às águas, na Itália, foi editada muito depois, é de 1976. No Canadá, a norma equivalente é de 1970 e na Suécia, é de 1969. Na Bélgica e Holanda, o direito positivo passa a editar normas ambientais, sobretudo relativas à defesa das águas, na década de 1980, embora a Holanda tenha tratado, em lei, da poluição das águas em 1969 e a Bélgica em 1971. A França, que costuma se antecipar às legislações européias,surgiu com o regramento ambiental somente em 1971 – Lei 76-633, de 19 de julho. Na Alemanha, a lei federal, que apenas sugere precauções para evitar efeitos prejudiciais ao ambiente, é datada de 15 de março de 1974, aperfeiçoada pela lei de proteção às águas em 1976. No Japão, a disciplina legal para a punição dos crimes “relativos à poluição ambiental com efeitos adversos sobre a saúde das pessoas” é de 1970. Nos Estados Unidos, as normas de proteção às águas datam de 1972 e, na Suiça, de 1971. Na Argélia, a legislação ambiental é de 1983, quando a lei 83-03, cuida da poluição das águas, proibindo o “lançamento de substâncias sólidas, líquidas ou gasosas, agentes patogênicos, em quantidade e em concentração de toxidade suscetível de causar agressão à saúde pública, à fauna e à flora ou prejudicar o desenvolvimento econômico” (art. 99). Como se vê, o texto reproduz, vinte e dois anos depois, a norma brasileira, editada por Jânio Quadros em 1961. Na Inglaterra, centro de tantos movimentos ecologistas, a lei de Controle da Poluição surgiu somente em 1974 e cuida, sobretudo, de descarga e efluentes industriais nos esgotos públicos (art. 43), embora passe pela poluição atmosférica (art. 75) e pela poluição acústica (art. 57 a 74). Impõe-se registrar, pela importância e pela larga previsão, o Decreto n° 50.877, de 29 de julho de 1961, do Presidente Jânio Quadros, dispondo sobre o lançamento de resíduos tóxicos ou oleosos nas águas interiores ou litorâneas. O ato normativo de Jânio Quadros proibiu terminantemente a limpeza de motores de navios no mar territorial brasileiro e foi mais longe: regulou o lançamento “às águas de resíduos líquidos, sólidos ou gasosos, domiciliares ou industriais, in natura ou depois de tratados”, permitindo-os somente quando “essa operação não implique na POLUIÇÃO das águas receptoras”. Neste decreto, a palavra “poluição” ingressou no direito positivo brasileiro com o sentido que tem hoje, diverso ou mais ampliado daquele adotado pelo verbo “poluir” do nosso Código Penal. Está definida pela própria norma em seu artigo 3°, verbis: “Para os efeitos deste Decreto, considera-se poluição qualquer alteração das propriedades físicas, químicas ou biológicas das águas, que possa importar em prejuízo à saúde, à segurança e ao bem-estar das populações e ainda comprometer a sua utilização para fins agrícolas, industriais, comerciais, recreativos e, principalmente, a existência normal da fauna aquática.” Ironia do destino: quase trinta anos depois, Jânio Quadros era prefeito de São Paulo e Saulo Ramos Ministro da Justiça. Um dia Saulo visitou o ex-presidente. Entre muitos assuntos, lembraram do decreto ecológico. E lamentaram: se aquele decreto houvesse sido respeitado e aplicado, São Paulo não teria perdido os rios Pinheiros e Tietê.

 

 

396.8 ppm de CO2 na atmosfera

Então que semana passada pra escrever o post sobre o filme “Chasing Ice” no meu blog pessoal visitei a página do CO2 Now depois de muuuuuito tempo, e tomei um susto.

396ppm

Gente, estamos beirando os 400 ppm de CO2 na atmosfera – este será inevitavelmente um dos headlines de jornal em 2014. Pela primeira vez na história da humanidade chegaremos nesse patamar de CO2 atmosférico. Causado por nós em sua maioria, diga-se de passagem.

(Parênteses: Esta medição global do CO2 é feita pelo NOAA, com dados obtidos pelo observatório que fica no topo do Mauna Loa, na Big Island. Tudo bem que o número acima ainda é preliminar, dependendo de calibrações e outras tecnicalidades, mas já dá uma idéia do ritmo alucinado em que as coisas andam no nosso querido planetinha azul.)

[Enquanto isso, ChinaÍndia (e sabe darwin quantos outros países menos em foco na mídia…) se sufocam em poluição.]

Lembra quando eu comentei sobre o livro do Mark Lynas “Six degrees” que especulava sobre o mundo com maior temperatura? Naquele momento em 2008, tínhamos 387 ppm de CO2 na atmosfera e as especulações de inevitabilidade otimistas estavam na casa de 1 grau. Nos níveis atuais, é muito maior a probabilidade de que o planeta enfrentará um aumento de 2 graus Celsius de temperatura – já que para evitar esse aumento, o comitê científico do governo holandês sugere que os países desenvolvidos precisariam cortar 50% das emissões de CO2 até 2020. O que, no atual clima político-econômico, é quase impossível, infelizmente convenhamos.

Como bem questiona o CO2 now na sua página inicial: você está preparado para um mundo a 400 ppm?

Tristeza sem fim.

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– E lembrando mais uma vez: o limite de segurança para que possamos mitigar um pouco das mudanças climáticas sugerido por um time de super-climatologistas incluindo James Hansen, da NASA, neste artigo de 2008 (!!!!) é de 350 ppm. Da conclusão do artigo [grifo meu]: 

“Humanity’s task of moderating human-caused global climate change is urgent. (…) Thus remaining fossil fuel reserves should not be exploited without a plan for retrieval and disposal of resulting atmospheric CO2. (…) The stakes, for all life on the planet, surpass those of any previous crisis. The greatest danger is continued ignorance and denial, which could make tragic consequences unavoidable.” 

E vale sempre relembrar desse vídeo emocionante feito para a (falida) conferência de Copenhague em 2009, uma canção que continua (e pelo visto continuará por muito tempo) atual:

Impossível para mim conter as lágrimas vendo este vídeo. Afinal, mudanças climáticas são cada vez mais um tópico emocionado, que me toca profundamente. Pela insolubilidade, pela inércia com que estamos levando esta crise, pela vergonha profunda do que estamos fazendo e deixando pras futuras gerações, pela falta de ética ambiental coletiva. 

How do we sleep while our beds are burning????

A velha e combalida “sustentabilidade ambiental”

Marina da Silva, ex-ministra do Meio Ambiente no Governo Lula, e detentora de 20 milhões de votos nas eleições de 2010, lançou hoje (16/02/2013), um novo partido. Ok, injustiça dizer que “ela” lançou, dado que havia muita gente em Brasília.

Não se discute o direito de quem quer que seja de criar o que quer que queira. Não vou entrar nesse mérito, a legislação de criação de partidos políticos rege-se pela Constituição. Ponto.

A plataforma básica da REDE (apelido que ela mesma criou e que permanecerá) é a sustentabilidade. Nas suas mais variadas acepções: tem espaço para qualquer um, não é do contra nem a favor, mas prevalece, pelas manifestações (e histórico) a questão da sustentabilidade ambiental.

O Faça tem por tradição não fazer política partidária e não serei eu a romper as regras. Mas… Quando a sustentabilidade se torna bandeira partidária, quero crer que caibam algumas observações.

A primeira delas, e quem tem a vontade de me ler por aqui sabe, é a de que o modelo de sustentabilidade desenvolvido e defendido nas últimas décadas do séc. XX acabou. Não se sustenta mais. Foi absorvido pelo “sistema”.

A proposta de um mundo novo ser possível naufragou na impossibilidade – muito simples – de alimentar esse “novo mundo”. Hortinhas de cebolinhas, manjerona, salsinha, etc. em casa, não irá trazer para a mesa dos famintos o feijão, o arroz, o pão, a margarina, o leite, o café,… E eis aqui a questão: as alternativas criadas pelos utópicos de 72 não passam disso: meras utopias sem olhar o horizonte…

Marina e seu partido escrevem – e assinam embaixo – que não querem doações de empresas que fabricam agrotóxicos, dentre outras. Afora a questão ideológica de ser intestinalmente contra o capitalismo que essas empresas representam, o modelo segue o padrão de sustentar uma humanidade de 50 mil habitantes e não de 10 BILHÕES como seremos em pouco tempo.

Não há, hoje, modelo de economia capaz de resolver essa questão. Mesmo os que produzem na “forma alternativa” sabem que, todos juntos, levariam algo como 500 anos – e contando com a diminuição da população – para conseguirem alimentar adequadamente a humanidade. O argumento de que o modelo atual também não consegue não procede, pois o problema não é de produção, mas de modelo de economia que privilegia a distribuição/venda. A economia é dita uma ciência, mas uma ciência que peca na principal raiz que a sustenta: a escassez.

Economistas (quase todos formados e letrados na economia defensora do lucro) defendem com unhas e dentes a máxima de que “os recursos são escassos”. A mesma economia, no entanto, criou um sistema de distribuição petróleo-baseado. Estradas para caminhões e automóveis. E uma vida plástico-baseada.

O plástico é infinito, parece! Esse “argumento” deve ter convencido Marina a aceitar como vice, em 2010, o dono da Natura que, não seria preciso dizer, EMBALA SEUS  PRODUTOS EM PLÁSTICO” e PAPELÃO (até onde sei, as embalagens não são feitas de papel reciclado).

O que a Marina quis dizer foi: acabemos com a economia capitalista que explora e destrói a natureza. Voltemos, nós os 10 bilhões de seres humanos, para as cavernas, de onde jamais deveríamos ter saído.

A Terra não é um útero, como queriam (e talvez ainda queiram) os defensores de Gaia. A Terra não é escassa e esgotável como defendem os que disso se valem para “fazer preço”.

Sobram recursos na Terra: sobra água, sobra terra, sobra comida, sobra verde, sobra tudo! Inclusive gente nas cidades!

O que falta é acabar com a hipocrisia de achar que um modelo “velho e combalido” de sustentabilidade ambiental é a solução para o Brasil.

“Sustentabilidade é agredir o ambiente de forma mais lenta”

Lendo esse post “Madeira de Demolição – moda ou atitude” (recomendo a leitura), no blog “Arquitetando Ideias“, da arquiteta porto-alegrense Elenara Stein Leitão, deparo-me, ao final do post, com a afirmação que usei como título: “Sustentabilidade é agredir o ambiente de forma mais lenta”.

A afirmação, assim meio solta, causa, no mínimo, um certo “Opa! Peraí! Que história é essa?” Primeiro fiquei tentando juntar o tico e o teco para ver se conseguiam, pelas suas próprias pernas, formular uma ideia razoável sobre o significado da frase, as implicações e consequências que a difusão de uma ideia dessas teria em termos da luta pela conservação ambiental.

Como o tico já anda velho e cansado, o teco resolveu tomar a dianteira e foi atrás do link. O link dá nesse post, também com o título de “”Sustentabilidade é agredir o ambiente de forma mais lenta”. Na verdade, é uma entrevista com o arquiteto inglês Michael Pawlyn. Na entrevista, que também deve ser lida, surge o que para mim era, até então, um conceito desconhecido: biomimética, ou biomimetismo.

Segundo Pawlyn, biomimética (bio = vida; mimetismo = imitação, adaptação) é uma prática que “prevê que o homem imitará a natureza para encontrar soluções que vão não só resolver os problemas do mundo, mas também recuperar os ecossistemas do planeta.”

Lá pelo meio da entrevista surge a confusão com o título (difícil de entender mesmo). Ao responder a pergunta “Poderia dar um exemplo de design sustentável e outro que seja de restauração?” Pawlyn diz:

“Digamos que um prédio de escritórios usa 30% menos energia elétrica, tem 20% menos concreto e janelas que conseguem filtrar a luz solar. Essas janelas, por exemplo, misturam diferentes materiais e todo o vidro que vai parar no ambiente não é reciclável. O concreto, mesmo em menor quantidade, continua sendo concreto, que é um material cuja produção emite muito gás carbônico. A conclusão é que apesar de ser menos agressivo, o prédio não contribui para a recuperação do ambiente. Ele apenas torna a agressão mais lenta.”

Parece ter sido uma transformação de interpretação. Pawlyn diz – ao que entendi, ao menos – que os atuais métodos aplicados como sendo de “sustentabilidade” apenas tornam a agressão à natureza mais lenta. Mas não disse, salvo melhor juízo, que sustentabilidade seja  (“É”) “agredir o ambiente de forma mais lenta”.

E Pawlyn conclui dizendo:

“A conclusão é que devemos ir além do conceito comum de sustentabilidade e recuperar o sistema agredido. Temos que sair de um nível estático, em que consumimos os recursos naturais de forma inconsequente, e sermos produtores dinâmicos de recursos.”

UFA! O teco parecia não estar muito errado na sensação que teve de que algo estava mal na afirmação do título… Agredir, mesmo que de forma “mais lenta” é bem diferente de fazer ações no sentido de “recuperar o sistema agredido”.  O título nos dá a ideia de que podemos continuar a destruir o ambiente, desde que reduzamos a velocidade.

OK, reduzir a velocidade do desmatamento, da mortandade de animais, da poluição, etc., ajuda, mas não é o conceito mais importante como, a primeira leitura, poderíamos pensar.

E aí surge a biomimética como tema de casa para estudo…

A banalização do meio ambiente

Fenômeno, de certa forma, esperado. Todo movimento de “contra cultura” um dia acaba banalizado, absorvido pelo sistema. O sistema tem disso, ele sabe perceber que a melhor maneira de derrotar seus inimigos é absorvendo as suas teses e transformando-as para proveito próprio.

Foi assim com os hippies e com o judaísmo-cristianismo (ou sistema judaico-cristão). Absorvidos. Com a luta por um meio ambiente sadio e sustentável não seria diferente. Mas qual a diferença entre a cultura hippie, a  judaico-cristã e a cultura de defesa pela conservação do meio ambiente?

As três tiveram os seus profetas e os seus messias. Hippies e defensores do meio ambiente, no entanto, diferem dos judeus-cristãos no ponto mais fundamental: a crença. Ou no seu corolário, o medo.

A cultura judaico-cristã atingiu as pessoas naquilo que lhes é mais caro: a finitude. Ao perceber o medo da finitude, a cultura judaico-cristã desenvolveu a crença na vida eterna. E acabou com tudo o mais.

Verdade seja dita: a maioria está se lixando para o meio ambiente pela simples razão de que, se ele acabar – e as pessoas acabarem também – as pessoas têm uma saída que o meio ambiente não tem: a vida eterna, “ao lado direito de Deus Pai”, como dizem os cristãos!

Não existe a crença no meio ambiente porque existe a crença na vida eterna. E, agora cumpre observar, não se trata apenas da cultura “ocidental”, a ver o que os mais de 3,5 bilhões de orientais – capitaneados pela China – andam fazendo com suas economias.

E tem mais, a cultura judaico-cristã desenvolveu o capitalismo, um sistema que tem por fundamento a exploração, seja do trabalhador, seja dos recursos do meio ambiente. O capitalismo também acredita na vida eterna. A vida da Terra não tem importância alguma diante das proezas que a tecnologia capitalista é capaz de fazer. Pouco importa se as futuras gerações verão árvores somente em filmes e fotografias (?): importa que para o capitalismo as pessoas estarão vivas para aproveitarem tudo quanto é produzido. A vida eterna, nos diz a cultura judaico-cristã por meio do capitalismo.

E essa crença no capitalismo é tão forte que mesmo as culturas orientais a ela se adaptam. O capitalismo os levará ao Nirvana! Mesmo que o Nirvana seja, também, uma fotografia colada na parede de algum quarto de um espaçonave qualquer perdida na galaxia!

A cultura judaico- cristã teve – e tem – o dom de desmaterializar tudo! Menos o que mais lhe interessa: a crença! E é justamente essa crença que permitiu absorver os hippies e, agora, permite absorver a defesa do meio ambiente.

Não há ser humano ou organização humana que não tenha por princípio ser “defensora do meio ambiente”. É, “capitalisticamente” falando, bacana para “imagem” defender o meio ambiente. Vende mais, alimenta mais ainda nossa sede de eternidade.

Na verdade, o que banaliza o meio ambiente é a nossa – dos profetas e messias modernos – incapacidade de mostrar que o meio ambiente é a vida eterna. Não a vida eterna de cada um, pois dessa a cultura judaico-cristã já cuida, mas a vida eterna da humanidade. Mesmo que esse eterno não passe de cinco bilhões de anos.

O mundo vai acabar em fogo?

East Greenland Ice Sheets

Pois é, já que o mundo não acabou, vamos falar sobre algo que está acabando com o mundo: o aquecimento global. Que calor, não é? Pois saiba que é essa realidade que devemos encarar daqui para  a frente. O mundo está em aquecimento.

E como isto nos afeta, além do inferno de temperaturas altíssimas? Neste post, a bióloga e pesquisadora Lucia Malla descreve os impactos sobre o planeta, se mantivermos o atual nível absurdamente alto de emissão de CO2 na atmosfera. E adverte:

Se lembrarmos que a chance de evitar um aumento de 1?C na atmosfera é ZERO, ou seja, inevitavelmente isso vai acontecer nas próximas décadas, trabalhar nesse tipo de previsão de como será o mundo aquecido é simplesmente fundamental. Não só para pesquisadores, mas também para governos, instituições, populações – enfim, para todos que habitam este planetinha azul.

Num mundo globalizado, apesar da estratificação, os impactos do aquecimento também são globalizados e a gente precisa se unir para encararmos juntos, de frente, sem fuga por negação, cada um fazendo a sua parte, esse novo estilo de vida quente.

É hora de pensar sobre como nossas vidas diárias afetam todo o planeta, todas as vezes em que nos abanarmos, ligarmos nosso ar condicionado e ventiladores e praguejarmos: “que calor dos infernos!” e mudarmos de atitude, individual e coletivamente, e cobrar das autoridades medidas que visem frear os danos ao ambiente a fim de minimizar seus efeitos sobre todos nós.

É para refletir e agir. Porque não dá mais para fugir. A chapa já esquentou!

Imagem: Creative Commons License Christine Zenino

Sua comida pode estar em extinção

Devido à pesca predatória, inúmeras espécies de peixes usadas como alimentos por nós, humanos, estão em extinção na África do Sul – o mesmo ocorre aqui no Brasil. Para alertar os moradores e os turistas sobre esse problema, organizações públicas, não governamentais e privadas se uniram na divulgação colando cartazes de alerta em diversos pontos públicos como no Two Oceans Aquarium, em Cape Town (Cidade do Cabo).

Os cartazes são simples. Neles, espécies peixes com nomes e ilustrações foram separadas em três categorias dentro das respectivas cores: green (verde), orange (laranja) e red (vermelho). Os peixes da categoria verde, como é o caso da anchova e do dourado, podem ser consumidos. O cartaz alerta para o consumo moderado das espécies colocadas na categoria laranja, como o bagre. Essas espécies correm risco de extinção, mas menos do que as inseridas na categoria vermelha como, por exemplo, o incomum peixe-serra. Veja aqui, no site da WWF, a lista completa.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 85% dos estoques de peixes do mundo são superexplorados ou já foram explorados ao máximo. Para piorar a situação, estima-se que um quarto dos animais marinhos pescados são muitas vezes mortos ou desperdiçados por terem sido capturados acidentalmente.

Parece que os restaurantes de modo geral da África do Sul, graças a esse extenso alerta, têm evitado comercializar as espécies em risco de extinção – me corrija se eu estiver enganada. Mesmo assim, os peixes e alguns frutos do mar estão entre os principais alimentos consumidos por lá. Eu, por exemplo, vivi a base de lula e peixe – mais saborosos do que os daqui!

A África do Sul tem uma extensa área costeira (3.798 quilômetros). Lá, peixe e frutos do mar custa cerca de três vezes menos do que os consumidos no Sudeste do Brasil, sendo que a costa brasileira é de cerca de 8 mil quilômetros – mais que o dobro maior do que a sul-africana. Alguns estudos apontam maior quantidade de animais marinhos em águas frias como as da África do Sul. Essa explicação seria suficiente para justificar os preços mais altos dos frutos do mar por aqui, já que o litoral do Brasil é relativamente quente? Ou os peixes do Brasil correm mais risco por diversos motivos?

Enfim, os recursos marinhos são finitos. O que está sendo feito no Brasil para cuidar dessas espécies e desse ambiente tão especial?

 

A jardineira viajante

Minha avó foi uma cigana moderna: morou em mais cidades do que ouvi falar em todas as aulas de Geografia do Ensino Médio. Viajar para visitá-la era tão freqüente na minha família que eu quase nasci em um trem a caminho de Piracicaba. “Mamãe vai mudar outra vez!”, comentava minha mãe, desapontada, ao fim de um telefonema para São Sebastião, Rio das Pedras, São Paulo, Ilhabela. Nas casas de minha avó sempre havia caixas pelos cantos – algumas iam de um CEP para outro sem jamais serem abertas. Perdi a conta de quanto dinheiro ela gastou com rescisões de contrato de aluguel. Dona Vera simplesmente não criava raízes.

Foi dessa mulher franzina, mas poderosa, que herdei o gosto por viajar – além de uma preguicinha básica para cozinhar. Como não tenho filhos, as pessoas costumam achar que a única coisa com que meu preocupo é em fazer as malas. Quem me dera! Tenho quatro gatos e 148 vasos de orquídeas, sem falar na jabuticabeira, na árvore-da-felicidade, no manacá-de-cheiro, na cerejeira japonesa e num animado filodendro, para citar as plantas mais beberronas de água. Alimentar essa fauna e flora não é moleza: os gatos consomem 4 kg de ração por mês e as verdinhas são regadas diariamente – sim, faça chuva ou faça sol, já que a água que cai do céu mal dá conta de umedecer a terra do canteiro.

Quem salva a pele da jardineira viajante pode ser um porteiro amigo, uma faxineira amiga, um sistema de irrigação amigo ou um amigo-amigo, mesmo, disposto a dar uma passadinha no seu apê e regar a molecada. Hoje tenho um sistema de irrigação que goteja nos vasos e no canteiro externo da varanda. Meeeeesmo assim, tem planta que eu rego na mão, porque irrigação é boa, mas encanamento não faz o milagre de contornar portas e vãos livres (pelo menos não sem ficar horrendo).

Com essas moças abandonadas pela umidade controlada do timer, eu uso a boa e velha técnica da garrafa plástica emborcada no substrato. A engenhoca é mais velha que andar pra frente: basta fazer um furinho no fundo da garrafa e outro na tampinha, encher a garrafa de água (segurando o furinho com um dedo), tampar com a tampinha furada e emborcar o aparato de cabeça pra baixo na terra. Ele vai gotejar tão lentamente quanto menor for o furo da tampinha (eu faço com alfinete de costura). Tchãnãm, está resolvido o mistério de viajantes que criam raízes.

PS: Você tem orquídeas e saco nenhum para arranjar quem as regue durante a viagem? Ponha sua orquídea numa árvore e deixe jesuzinho regar. Instruções no vídeo: http://youtu.be/8PD4y3-kVgM

Por uma infância mais sustentável

Cidadãos unidos por uma infância sustentável

O que publicidade infantil tem a ver com sustentabilidade? Provavelmente um leitor deste blog já tem a resposta na ponta da língua: tudo!

“A publicidade infantil é danosa às crianças quando as pressiona a desejar cada vez mais bens de consumo, associando-os a um discurso enganoso de alegria, felicidade e status social. Além de trazer sofrimento às crianças que não podem obter esses bens devido à falta de recursos financeiros, essa pressão não pode ser devidamente elaborada pelos pequenos, cujo senso crítico ainda está em desenvolvimento.”

Os atuais níveis de consumo de grande parte dos habitantes desse nosso mundão estão muito além daquilo que o planeta pode suportar. Por isso, sempre defendemos aqui no Faça a sua parte uma reflexão sobre o que, por que e como consumimos. O famoso primeiro “erre”: repensar. Do jeito que as coisas estão, sabemos que não podem ficar.

“[…]estamos diante de um novo fato: pela primeira vez na história humana, se questiona a forma como estamos consumindo o planeta Terra. As crianças de hoje serão responsáveis pelo planeta de amanhã. Mas, ao invés de serem educados para se tornarem cidadãos conscientes, eles estão sendo formados consumidores desde a mais tenra idade.”

Sim, é aí que começa a construção desses hábitos de consumo que, muitas vezes, levamos conosco pela vida inteira: na infância. E é aí que entram os efeitos negativos da publicidade infantil da maneira como é feita hoje no Brasil (em em muitas partes do mundo também). As empresas e publicitários precisam repensar a maneira como se comunicam com nossas crianças. E o Estado precisa nos ajudar nessa tarefa, fornecendo, no mínimo dos mínimos, diretrizes norteadoras para proteger a infância do atual bombardeio publicitário.

“[…]defendemos que, para cumprir nossa responsabilidade de educar nossos filhos para a cidadania e a sustentabilidade, precisamos do apoio efetivo do Estado e da responsabilização efetiva das empresas privadas, dos veículos de comunicação e das agências de publicidade.”

Para um futuro sustentável, precisamos assegurar que os valores da infância que realmente importam sejam defendidos. E, hoje, a publicidade infantil não está fazendo seu papel adequadamente.

“O excesso de propagandas e o conteúdo manipulatório delas dificulta uma educação cidadã e sustentável, a qual todos desejamos.”

Por esse motivo, convido vocês a conhecerem o movimento Infância Livre de Consumismo (no blog, no Twitter e no Facebook), que hoje está promovendo a blogagem coletiva #desocupaCONAR para mostrar que não estamos satisfeitos com a atual autorregulamentação a que o setor é submetido, já que esta tem se mostrado ineficiente em punir e evitar abusos na publicidade infantil.

Essa blogagem está ocorrendo hoje porque amanhã, dia 3 de julho de 2012, será um dia marcante para o movimento, que estará em Brasília participando de uma audiência pública referente ao Projeto de Lei 5921/01, que pretende determinar um novo regramento para a publicidade infantil no Brasil. Pela primeira vez, os pais e mães serão representados num evento dessa grandeza!

Então vamos juntos, pois um mundo melhor é para todos.

(Nota: os trechos entre aspas e em itálico foram retirados da descrição do movimento Infância Livre de Consumismo.)